quinta-feira, 28 de agosto de 2008

DESABAFO: Educação para a Barbárie

"Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! ".

Antes o horror era na travessia dos navios que traziam escravizados da África para o Brasil. Hoje, esta frase me vem constantemente à mente quando estou dentro da Escola. Tentando administrar conflitos, ou quando converso com colegas de faculdade que também tornaram-se professores e estão, como eu, submetidos a uma série de frustações, violência, humilhações, conflitos de uma sociedade corrompida como a nossa , encarnados na Escola, no dia a dia da Escola, diga-se bem.
Bem, é um exagero comparar a crise na Educação Brasileira com o horror dos Navios Negreiros de Castro Alves. Mas acho que é hora de exagerarmos mesmo. Sermos radicais, irmos a raíz. A história do Brasil, de boa parte dele, de quase quatrocentos anos dele, se fez através desses navios. Somos esta história. A escola que eu vejo não é uma ponte para a evolução. A verdadeira escola que vejo, que trabalho, que estudo, é uma Instituição que exclui, discrimina, ignora. O que pode ser pior numa sociedade do que uma Instituição que deveria ser o locus, por excelência, da superação e da evolução de uma sociedade. O local ideal para e equalização das desigualdades economicas, sociais e históricas. Mas que, ao invés disso, se transforma numa das esferas mais violentas, e locus privilegiado de exclusão e manuntenção e reprodução de nosso país nascido sobre tanto "horror perante o céu"?
Quem sabe assim chamaremos a atenção para o absurdo da Educação básica nacional para o Absurdo das condições de trabalho do professor, que estamos todos ficando doentes. As vezes, quando saio de algumas aulas, fico imaginando se há alguma trabalho pior do que esse. Trabalho, diga-se bem, não luta pela sobrevivência, como milhares de brasileiros tem que fazer dia e noite para sobreviver e manter a dignidade para não ir para o crime (talvez até com razão...).
Senão, que tipo de trabalho, um único indivíduo, com diploma universitário, tem que entrar numa sala, com trinta, quarenta ou cinquenta outros individuos totalmente diferentes, mas se relacionando coletivamente. Ensinar a todos, ao mesmo tempo, o mesmo conteúdo. Que sabemos, não tem muito a ver com suas vidas. Ainda mais se a "clientela" da escola for oriunda de regiões pobres, senão miseráveis, e com profundas crises sociais. E tudo isso encarnado no aluno, no professor, na direção, nos funcionários. Enquanto estamos perto do computador quântico, escolas não tem Giz. Enquanto os alunos tem acesso fácil e barato a todo tipo de tecnologia digital, midiática, maravilhosa, temos que dar conta de um conteúdo que não lhes diz respeito. Enquanto os alunos tem acesso e convívio com todo tipo de violência e desestrutura familiar e social, temos todos que fazê-los sentar em filas, quietos e fazê-los aprender. Quando eu era aluno, o conteúdo da escola também não me dizia respeito. Mas ainda sim, havia duas coisas que hoje são raras. Primeiro, tínhamos a sede do Conhecer. Segundo, querendo ou não, tínhamos que estudar, caso contrário, reprovávamos, sem dó nem piedade. E esta responsabilidade já havia em nós. Com onze, doze anos, tínhamos já o peso da responsabilidade de não ser reprovado. Hoje... alunos de quarta série tem consciência de que não precisam estudar pra passar de ano. Puxa Vida, se nem na faculdade a gente estuda se não for obrigado pelo professor, é muita estupidez achar que uma criança vai estudar sem nenhum tipo de "incentivo".
O discurso moderno da violência que era a repetência é bonito. Mas tão estúpido quanto a repetência, da qual eu próprio tive duas experiências, é seu extremo contrário: a nossa famosa Progressão Continuada.
Isso daria um livro. mas basta dizer que é um projeto de governo do PSDB paulista, e reverendado por toda a população pelo voto, de fazer o Brasil ter índices de desenvolvimento equivalentes a "países desenvolvidos", como afirma a secretária de Educação.
Pois é.... Se Marx ficou famoso porque inverteu a lógica da dialética de Hegel. os tucanos entrarão para a história como os que inverteram a lógica do conceito de Infra/Super Estrutura de Marx. Quer dizer, primeiro nós temos que alcançar os índices de países desenvolvidos, depois... estes índices alterarão as reais condições de nossa sociedade.
Acontece que o preço dessa maquiagem sairá caro, em pouco tempo. Se vivemos já numa sociedade autoritário, profundamente marcada pela violência da desigualdade econômica, individualista, este projeto de Educação que a sociedade do Estado de São Paulo está implantando através do PSDB...... estamos educando para a Barbárie. E todos os professores, querendo ou não, somos coniventes com isso.
Claro, há alternativas, nem tudo está perdido. Mas minha realidade não é essa. É é dela que devo falar. De alunos do terceiro ano do ensino médio que nunca leram nenhum livro na vida. De alunos da quinta série, qua não sabem ler, escrever, e ainda assim, tiram boas notas em Língua Portuguesa. Ah, e lógico, indiferente das notas, passarão de ano. De professores que são agredidos constantemente pelos alunos, pois alguém vai ter que receber de volta toda esta violência da sociedade que eles recebem: dos pais, dos amigos, da mídia, da sociedade de consumo, da escola, do tráfico, do trânsito (pois ainda não sei como não morreu nenhum dos alunos no caminho de nossa escola). Aí acontece o seguinte: em escolas públicas o professor desiste de querer ensinar. Fica doente. E torna a relação com o aluno tão violenta quanto. Ou então ignora a situação, pois, "o que podemos fazer", assim que é, e assim será. Prova disso é que boa parte dos filhos dos professores e DIRETORES ( atestado de incompetência) estudam em escolas particulares. Que por sua vez, tem em sua clientela os filhos da classe média alta, ou da elite econômica - daquela que mandava vir os Navios, e que, por estarem pagando o salário do professor, acham que este tem que se sujeitar a todo tipo de humilhação que seus filhinhos, futura elite do Brasil, podem lhe submeter. E não são poucas... Resultado: Se o professor da escola pública, que sofre a violência, pode ao menos verbalizá-la, seja contra o aluno, seja à seus responsáveis, o professor da escola particular ainda tem que pedir desculpas quando reage a alguma humilhação ou violência.
Mas não acho que os professores somos somente vítimas disso. Também estamos entre os maiores responsáveis. E omissos

terça-feira, 8 de julho de 2008

GREVE E GUERRA NA ESCOLA

Escrevi este texto antes da greve. Gostaria muito que a atuação da APEOESP provasse o contrário desta vez Inclusive continuei associado, e pagando o sindicato, mesmo sendo politicamente contrário a esta greve. Bom... neste mês vou lá pedir minha desfiliação...

Já virou Rotina. Todo o ano a secretaria de educação do estado de São Paulo cria alguma mudança no Sistema de Ensino e o Sindicato decreta greve. É sempre o Mais do Mesmo. Mudança, Contestação e Acomodação pra tudo continuar como está.Vejam eu. Estou a quatro anos e meio dando aulas, e como a maioria dos professores, sofro com a minha profissão e acho difícil haver outras que provoquem tamanho sofrimento – quem, como eu, é professor da rede estadual sabe que não é exagero. Às vezes uma vontade de abrir a porta da sala de aula, e sair, andar, andar e andar, pra escapar do sofrimento e não descontar na mesma moeda o desrespeito, a violência, a provocação que a sociedade, o Estado, os responsáveis pela administração do sistema e os alunos, do infantil ao terceiro ano, nos fazem suportar em nosso ambiente de trabalho.E apesar disso tudo nós, professores, ainda acreditamos na Educação. Podemos estar acomodados. Tentar nos adaptar às mudanças das políticas públicas partidárias da Educação. E mesmo nesse palco de absurdo, contentar-nos com as migalhas quando vemos em pelo menos um aluno que estamos sendo peça fundamental no seu desenvolvimento psíquico, cognitivo, e emocional.Pois bem, enquanto classe docente, temos um Sindicato grande, estruturado, e representativo – a APEOESP. Que tem suas escolhas de atuação política. Escolhas estas referendadas pelo voto da maioria na escolha dos seus dirigentes. Por exemplo, a escolha de defender os interesses da classe pela via da negociação, e só depois a greve. Mas não greve para contestar toda uma Política Pública Partidária para a Educação do Estado de São Paulo. Mas uma greve para deixar as coisas como estão. Para não perder as migalhas. Podemos até dizer para não perder os privilégios, que temos se comparados com outras classes de trabalhadores regidas pela C.L.T. Privilégios estes que talvez amenizem as condições insalubres do trabalho docente, do não conseguir ensinar, das síndromes e doenças emocionais. Quantas vezes já ouvi de professores que estão perto da aposentadoria dizer-me: “Você está novo, não tem filhos, saia dessa, preste algum concurso público qualquer. Mas não fique aqui”. E mais escandaloso ainda: Professores que gastam boa parte do seu sofrido salário para pagar escolas particulares para os próprios filhos. (e sabem de uma coisa.... se tivesse um filho hoje, faria o mesmo para não deixá-lo numa escola estadual).“Grande Hipócrita, poderão me acusar”. Pois admito que não consigo trabalhar de forma satisfatória no emprego que escolhi. E em vez de participar do Sindicato só o critico, já que nestas condições sou contrário à greve, por entender que ela não vai a raiz do problema por entender que, gastando um pouco da minha Sociologia, apenas se adapta à ele, contribuindo com o Grande Sistema Capitalista, que, ao contrário do prevista pela Dialética Marxista, sempre consegue adaptar e superar suas crises (claro, socializando suas dívidas entre todos).Mas vejamos. Tanto a greve do ano de 2005, a de 2007 quanto a decretada agora, foi proposta, votada e aprovada em Assembléia de Professores realizada no Masp, na Avenida Paulista. Ainda que o número de participantes tenha sido tantos mil segundo a Apeoesp, quanto tantos mil segundo o Governo, ele não é representativo, pois somente aqueles professores que são historicamente engajados e previamente favoráveis à Greve tem a disposição de ir à São Paulo, fazer passeata, às vezes enfrentar a polícia. E são estes que votam na Assembléia e decretam greve. Pois quem é contrário a greve não vai à Assembléia.Ai a greve é decretada, deflagrada e difundida, apesar do desgaste provocado pelos 200Km de congestionamento no dia da Assembléia na Av. Paulista. Mas sua força é totalmente pulverizada ante a grande maioria que não participou nem com sim, nem com não da Assembléia para aprovar ou não a greve.Até que o governo jogue algumas migalhas, e então o sindicato se proclama como Vencedor, Vitorioso, Poderoso, e as coisas continuam como estão: Alunos de Ensino Fundamental que não sabem ler, e uma secretária da Educação, com Mestrado na Unicamp e Doutorado na Usp, dando em entrevista na Revista Veja a afirmação de que no seu mundo ideal, ela fecharia as faculdades de Educação da UNICAMP e da USP.Meu Deus Meu Deus, será que nos abandonastes à nossa própria estupidez? E a Educação virou palco do Absurdo?P.S.: A próxima Assembléia está marcada para esta próxima Sexta, 27 de junho. A questão agora é. O Sindicato continuará com a greve, mesmo com o aumento concedido, até que todas suas reivindicações sejam contempladas. http://www.apeoesp.org.br/. Ou, mais uma vez será o mais do mesmo?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Para um Sentido do Processo Educativo

Educação, educação, educação. Parece que repetir esta palavra, como um mantra vai resolver todas as mazelas sociais deste nosso país.Pois é isso que temos visto na mídia nos últimos meses face à violência bárbara que nos assalta a cada dia. Mas, afinal, será que a Educação tem mesmo esse poder? De que processo educativo estas pessoas estão falando? Talvez de algum projeto alternativo ou de alguma escola da Coréia do Sul, pois, verdade seja dita, dentro da sala de aula de uma escola pública, a história é outra.Vejamos o caso das escolas estaduais de São Paulo: as salas são geralmente lotadas não raro com 40 alunos. Enquanto o ideal não deveria passar dos 20. O professor tem que dar conta, ao mesmo tempo, de um conteúdo formal, (por exemplo, ensinar o Império Bizantino para crianças de 11 anos) e despertar a curiosidade e o interesse deles; correndo o risco de ser taxado de incompetente pelo Estado se não conseguir bons resultados. Além disso, tem que conviver a cada cinqüenta minutos com, se fizermos uma média, 35 alunos, 35 realidades sociais diferentes, diversas e complexas. Alunos brilhantes, alunos irrequietos, alunos retraídos, alunos com necessidades especiais, alunos com grande carência material e afetiva, alunos que, sinal dos tempos, convivem e trazem para a escola a convivência com a violência, as drogas, a banalização do sexo, a falta de respeito – a fome.E ainda há quem se assuste quando ouve que a escola é o reflexo da sociedade.É uma falácia achar que colocar todas as crianças e jovens na sala de aula resolverá a miséria social que destrói o país. Será que é tão difícil para nós e nossos representantes políticos, para nossos formadores de opinião da mídia, por em ação duas ou três medidas mais que óbvias para tornar viável, de fato, o processo educativo em sala de aula?Será que dobrar o número de salas de aulas para que a “clientela” não ultrapasse o recomendado pelo bom senso causaria um rombo nos cofres públicos maior que o desviado em corrupção ou no pagamento de juros? Além de contratar um corpo de profissionais como psicólogos e pedagogos especialistas em educação especial em todas escolas públicas? Se não fosse pedir demais, diminuir a cobrança burocrática por resultados quantitativos dos professores e criar uma atmosfera de trabalho que contemplasse a realidade do aluno, a valorização do trabalho docente, e um sentido de fato ao processo educativo com vistas a um mundo que exigirá formação não só de conteúdo, mas técnico e profissional.

Educação ou Barbárie

Revolução??
Uma vez, um amigo disse-me que a Revolução não viria mais pela guerra do Socialismo contra o Capitalismo. Mas viria com a Educação. Fiquei com aquilo na cabeça por anos. Até compreender - quando comecei a dar aulas na rede pública. Que a escola pode ser sim um locus para a Revolução. Ou para o recrudescimento da Barbárie.